
Uma tecnologia pode tornar a aplicação de defensivos agrícolas em plantações de eucalipto 41,8% mais eficiente e econômica. A pesquisa “Pulverização aérea eletrostática em baixo volume em eucalipto: Desempenho da aplicação” resulta do trabalho de conclusão de curso (TCC) em Engenharia Florestal de Thaís Roso em Engenharia Florestal. O estudo foi feito no âmbito Grupo de Pesquisa Manejo Inteligente em Tecnologia de Aplicação da Universidade Federal de Santa Maria (MITA/UFSM), em parceria com a empresa CMPC, e publicado em edição deste ano da Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental.
O MITA trabalha com tecnologias de aplicação, conjunto de conhecimentos técnicos e científicos que envolvem a mistura utilizada, os equipamentos, o alvo e as condições ambientais. O objetivo é fazer com que defensivos agrícolas e fertilizantes alcancem o local desejado de maneira adequada, econômica e segura, como forma de reduzir perdas e impactos ambientais.
A parceria com a CMPC, empresa que atua na produção de celulose e mantém extensas áreas de plantio de eucalipto no Rio Grande do Sul, possibilitou estudar uma demanda prática do setor florestal: encontrar alternativas para melhorar a aplicação de defensivos em árvores de grande porte.


Tecnologia de aplicação: pulverização eletrostática
A pulverização agrícola consiste em transformar uma calda líquida em gotas que serão distribuídas sobre determinado alvo. Já com a tecnologia de aplicação se pretende que essas gotas alcancem o local desejado, ao levar em consideração fatores como o equipamento utilizado, as características das gotas e as condições ambientais.
O trabalho da então estudante comparou dois sistemas de pulverização aérea: o convencional, com bicos hidráulicos, e o eletrostático. No método convencional, o equipamento transforma a calda em gotas que são lançadas sobre as plantas. Durante o processo, parte delas pode não atingir o alvo, provocando perdas e dificultando a cobertura das folhas.
Já na pulverização eletrostática, as gotas recebem uma carga elétrica que favorece sua atração pelas superfícies vegetais. A carga também promove a repulsão entre as gotas, o que pode contribuir para sua distribuição durante a aplicação.
Os experimentos compararam o sistema hidráulico convencional, que utilizou 30 litros de calda por hectare, com o sistema eletrostático, que utilizou 10 litros por hectare. Dessa forma, a tecnologia eletrostática empregou um terço do volume utilizado no método convencional.
Os resultados mostraram que, mesmo com a redução de aproximadamente 66,7% no volume de calda, os dois sistemas apresentaram resultados semelhantes em densidade de gotas e cobertura das folhas. A pulverização eletrostática também proporcionou uma distribuição mais uniforme do produto ao longo da copa das árvores.
O sistema convencional, por sua vez, apresentou maior deposição na parte superior dos eucaliptos. Nas regiões intermediária e inferior da copa, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os métodos.
Além da qualidade da aplicação, o estudo estimou uma redução de aproximadamente 41,8% no custo por hectare com o sistema eletrostático. Os custos estimados foram de US$ 53,92 por hectare para a pulverização convencional e US$ 31,37 para a eletrostática. Os valores foram calculados com base em uma consulta de mercado a três prestadores de serviços de pulverização aérea.
Aplicação em árvores de eucalipto
A pesquisa surgiu de uma necessidade prática da CMPC, que buscava avaliar alternativas de aplicação para o controle do percevejo-bronzeado (Thaumastocoris peregrinus), inseto-praga que ataca plantações de eucalipto. A espécie, originária da Austrália, está presente no Brasil desde 2008.
O inseto provoca o bronzeamento das folhas, prejudicando a fotossíntese e podendo comprometer o desenvolvimento das árvores. Em situações de infestação severa, os danos podem contribuir para a morte das plantas. Um dos desafios para o manejo da praga é a altura dos eucaliptos, que pode chegar a 20 ou 30 metros. Essa característica dificulta a aplicação de defensivos e exige tecnologias capazes de distribuir o produto de maneira adequada ao longo da copa.
Os experimentos foram realizados em anos e locais diferentes do Rio Grande do Sul. Em 2023, o sistema convencional foi avaliado em uma área de plantio em Cachoeira do Sul. Já o teste com pulverização eletrostática ocorreu em São Gabriel, em 2024. Na época, Thaís atuava na área florestal e participou do desenvolvimento da pesquisa, que posteriormente foi analisada e apresentada em seu TCC.
Segundo a pesquisadora, o trabalho contribuiu para a elaboração de uma recomendação técnica da CMPC para a aplicação aérea no controle do percevejo-bronzeado. A experiência também aproximou a investigação acadêmica das necessidades do setor produtivo, demonstrando como a universidade pode contribuir para o desenvolvimento e a avaliação de tecnologias utilizadas no manejo florestal.
Thaís destaca que o setor busca continuamente ampliar a mecanização das operações e aprimorar as tecnologias empregadas nas plantações. Nesse contexto, pesquisas sobre métodos de aplicação podem contribuir para o uso mais eficiente dos recursos e para a melhoria dos procedimentos adotados no campo.
A engenheira florestal também ressalta a importância de ampliar as pesquisas sobre o controle de insetos-praga na Engenharia Florestal e fortalecer a integração entre universidades e empresas. “Ter tido esse espaço para pesquisar na UFSM foi fundamental para a minha trajetória profissional”, afirma.
Texto: Ellen Schwade, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotos: Divulgação/MITA
Edição: Maurício Dias, jornalista

